Como raros projetos musicais, o Vanguart tem uma sonoridade particular: sua assinatura própria e inconfundível mistura folk e blues com ar contemporâneo e emotivo. Para o lançamento de Oceano Rubi, álbum que é continuação de Intervenção Lunar (2021), o trio formado por Helio Flanders (violão e vocais), Reginaldo Lincoln (baixo e vocais) e Fernanda Kostchak (violino) se mostra tranquilo e à vontade.
“Este é um trabalho de entrega. A gente nunca falou das músicas de forma tão aberta. Traz uma transparência inédita para nós, como se agora fosse possível nos ver ainda mais de perto”, explica Kostchak ao Apple Music. “Oceano Rubi simboliza um momento muito íntimo. Caímos na estrada só os três pela primeira vez e começamos a nos comunicar só com o olhar,” complementa Flanders, que compôs a maior parte das faixas do álbum com Lincoln. “Gostamos de pensar na história que está sendo contada do início ao fim. Dá para fazer um caminho bonito, de um desaguar suave entre Intervenção Lunar e Oceano Rubi. São músicas que traduzem um estado de espírito e um lugar de conforto,” explica Lincoln. A seguir, o trio revela a história de cada uma das composições de Oceano Rubi.
O Que Eu Vou Levar Quando Eu For
Helio Flanders: “Escrevi para uma série [de TV], só que acabou não entrando – o que foi bom, porque conseguimos usar no Vanguart. Fala sobre Alzheimer, que é um tema muito delicado. Eu tenho uma história familiar com essa doença e boa parte dos brasileiros já vivenciou, ou vivencia, esse drama. Justamente por saber da dificuldade que é, tentei trazer alguma delicadeza. É uma história fictícia de alguém com 70 e tantos anos que começa a ter os primeiros sinais de perda de memória e descobre uma nova paixão. A personagem tem certeza de que vai esquecer de boa parte das coisas, exceto daquela pessoa que subitamente aparece, como se o amor fosse suficiente para vencer tudo.”
Amorosidade
Reginaldo Lincoln: “É a ideia de um amanhecer bonito, de algo esperançoso. Trata a felicidade como algo realmente palpável que a gente sabe que vai acabar. Eu falo na letra que o vento tenta derrubar a árvore, mas a gente está ali, firme. Era para ser um samba-canção, mas mudamos a sonoridade com o violino da Fernanda, acabou ficando mais quente.”
Fernanda Kostchak: “Eu gosto da ideia de o violino entrar junto com banda, pois o solo de violino é algo com que se está mais habituado. Esta música traz isso, começa todo mundo junto.”
Oceano Rubi
H.F.: “É sobre uma nova paixão. Eu lembro de mostrar para o pessoal e de me emocionar com ela. A música tem uma doçura adolescente, de você encontrar alguém por acaso, antes de existir o celular. Escrevi pensando nesses raios de uma paixão. Não há sentido em se apaixonar, porque está tudo explicado, sem ter explicação alguma.”
O Amor É Assim
H.F.: “É mais uma do meu bloco de canções de amor, só que imaginando outra pessoa. Sempre utilizei mais a primeira pessoa e as minhas próprias experiências [nas letras], por mais obscuras que elas fossem. Em ‘O Amor É Assim’, sou eu vivendo aquilo, só que contando do ponto de vista de outra pessoa.”
R.L.: “Tem uma referência aos Beatles no arranjo. Foi uma das primeiras músicas que arranjamos com o Kezo Nogueira, nosso baterista, e rolou uma conexão incrível.”
H.F.: “E tem um staccato [tipo de toque que deixa as notas mais curtas] que a Fernanda faz no violino que é marcante.”
F.K.: “Staccato a gente não faz em orquestra, mas eu faço na banda para dar um efeito de descontrole e sujar o som. Combina com a energia desta música.”
O Que Deus Quiser
R.L.: “Foi uma das primeiras que eu e o Helio tocamos juntos quando começamos a pensar neste álbum. Eu havia assistido ao filme do Vinícius de Moraes [Vinícius, de 2005] e pensei em como ele falava de amor de maneira tão simples e gigantesca. É sobre a vida real e a arte em uma singela homenagem à poesia de Vinícius.”
H.F.: “Eu gosto muito do Reginaldo cantando esta música, mas acabamos cantando juntos. É uma das minhas preferidas dele e até brigamos, porque eu queria que ele cantasse sozinho. Ele insistiu para que eu participasse e acabei acatando a vontade do autor.”
A Minha Saudade Já Não Cabe Em Mim
H.F.: “É sobre uma paixão enorme que eu vivi - ainda vivo - e que me inspirou. Nasceu do inconsciente: eu abri o gravador e ela saiu, assim como ‘Semáforo’ [de 2007] e algumas outras. Gravamos com violão de nylon, algo não muito comum na nossa carreira.”
R.L.: “Uma música tipicamente ‘flanderiana’. Começou mais simples e a preenchemos aos poucos. Tem uma personalidade muito Vanguart.”
Fogo Fátuo
H.F.: “É a música mais folclórica que já fizemos. Fala de Cuiabá de um jeito aberto e retrata as lendas do cancioneiro popular do cerrado e do rio Cuiabá, que tem uma presença mágica no nosso imaginário. É daquelas composições de autoconsolo.”
R.L.: “Esta música me lembra a minha família, nos elementos que me fazem pensar na vida tão intensamente.”
Oceano Rubi
Folk Rock • 2022