Olho Furta-Cor
Rock • 2022


No mesmo ano em que completam quatro décadas na estrada, os Titãs lançam Olho Furta-Cor, álbum com 14 músicas inéditas que trazem uma visão crítica e reflexiva sobre o Brasil e o mundo. Inspirada pelo poeta Haroldo de Campos, a banda – formada pelos membros originais Tony Bellotto, Branco Mello e Sérgio Britto, além de Mario Fabre e Beto Lee – traça um paralelo entre a poesia concreta, a essência humana e o cenário político atual. “É um álbum rico musicalmente e muito criativo. Comemoramos 40 anos de carreira com a mesma euforia do primeiro”, conta Bellotto ao Apple Music.
O cantor, guitarrista e compositor se mostra entusiasmado com o resultado do projeto, que aposta em contrastes e mistura de sonoridades para desenhar uma estética diversa. “Fazer um álbum de músicas inéditas foi a maneira mais estimulante que encontramos para comemorar nossa trajetória. Também serviu para reafirmar nossa vitalidade criativa, olhando para frente sem abandonar nossa história”, explica. A seguir, ele conta como foi criada cada uma das 14 faixas de Olho Furta-Cor.

Apocalipse Só
“Em um momento grave da pandemia, eu, Sérgio Britto e Branco Mello começamos a pensar sobre um álbum de rock com elementos de música brasileira. Durante a pesquisa, descobri a gravação de um canto ritualístico do povo indígena Xingu. Criei então um riff na guitarra que é bem rock, mas que remete àquela sonoridade. Acertamos o arranjo com o coro de crianças de uma ONG que ensina música para comunidades carentes. O apocalipse pode ser visto como um fim mas, no sentido bíblico, é também uma revelação. É simbólico abrir o álbum assim.”

Caos
“Foi um presente da Rita Lee. A composição é dela, do Roberto de Carvalho e do Beto Lee [atual guitarrista dos Titãs]. Caiu como uma luva, já que a nossa ideia era fazer uma fotografia instantânea do que está acontecendo no Brasil. Tem a visão bem-humorada da Rita Lee para falar de coisas profundas de um jeito simples e um refrão avassalador. Acabou ajudando a construir o conceito do álbum.”

São Paulo 3
“Esta e ‘São Paulo 1’ foram feitas em cima de “são paulo”, poema de Haroldo de Campos, autor concretista que conhecemos nos anos 80. O diretor Felipe Hirsch comentou que em 2022 os Titãs fariam 40 anos, o Brasil faria 200 [bicentenário da independência], e a Semana de Arte Moderna, 100. Ele nos enviou este poema que fala da cidade, da paisagem urbana e do ‘olho furta-cor dos semáforos de rua’. Foi um grande feito do Britto musicar uma obra tão complexa.”

Como é Bom Ser Simples
“Esta é do Branco Mello, do filho dele, Bento Mello, e do Hugo Possolo, diretor de teatro e dramaturgo. Durante a preparação do álbum, Branco fez uma cirurgia para retirar um tumor na garganta e, quando iniciamos as gravações, a voz dele ainda estava muito fraca. Nesta faixa e em ‘O Melhor Amigo do Cão’, usamos as vozes que ele tinha registrado ainda na demo. A música fala do momento atual e de uma postura necessária para enfrentar essas dificuldades.”

Raul
“Britto vinha trabalhando nesta música há muito tempo, e ela fala de Raul Seixas sem citar o nome dele. Traz as ligações entre a cultura norte-americana e a nordestina, de Elvis Presley a Luiz Gonzaga, da qual Raul é fruto também. Começa com um forró estilizado e, do meio para o fim, vira um punk rock. Raul é um dos grandes ídolos de todos os tempos, um dos pais do rock brasileiro. A faixa representa a forte presença da cultura nordestina na cidade de São Paulo.”

Um Mundo
“Comecei a compor esta música durante a pandemia. Tem a ver com a polarização política, mas também com as relações humanas. É sobre a distância, sobre esse ‘mundo’ que nos separa. A única certeza que temos é a de que cada um de nós tem convicções diferentes. Virou uma balada rock anos 70, com uma certa melancolia.”

Há de Ser Assim
“É um rock pesado, com guitarras densas, mas que também alterna a voz do Britto com o piano. Faz dobradinha com ‘Um Mundo’, porque aborda as dificuldades nas relações atuais, nas distâncias sociais, na internet que aproxima mas, ao mesmo tempo, afasta. São ideias abertas. Não gostamos de nos comunicar de um jeito panfletário, nossa proposta nunca é apresentar certezas.”

Papai e Mamãe
“Britto compôs esta música a partir da observação da filha adolescente dele durante a pandemia. Fala do sentimento de virar adulto, sobre como a vida que é apresentada a você pela família, escola e sociedade não é a que você quer viver. Os Titãs são homens na casa dos 60 anos, mas o Britto consegue falar das dores de uma jovem menina. Essa liberdade artística traz uma diversidade criativa ao álbum. O eu lírico das músicas é muito variado, com questões específicas e originais em cada uma.”

Eu Sou o Mal
“Fiz esta faixa pensando nas ameaças atuais à democracia, na valorização da violência. Há um sentimento de prevalência do mal no mundo, aquela ‘maldade absoluta’ estudada pela filósofa Hannah Arendt. É sobre essas situações injustificáveis de feminicídio e de violência generalizada. O personagem é um cara desvinculado de qualquer humanidade. Há uma música da Jovem Guarda [‘Lobo Mau - The Wanderer’, de Roberto Carlos] que diz ‘eu sou o tal’, e eu brinco com a ideia de que hoje o ‘tal’ é o ‘mal’. É um dos rocks mais pesados do álbum.”

Por Galletas
“Britto leu sobre o caso no Haiti em que soldados da missão de paz da ONU foram acusados de abuso sexual. A música retoma a ideia do mal absoluto e é a nossa visão de onde a humanidade pode chegar. É meio folclórica, latina, como um lamento em cima da desilusão.”

O Melhor Amigo do Cão
“É uma das poucas músicas do álbum que traz um certo lirismo, uma brincadeira descansada. É sobre um cara que resolve ser o melhor amigo do cão, talvez porque a vida humana não esteja oferecendo tantas possibilidades de amizade e confiança. Surgiu de uma situação prosaica: três cachorros latiam e nos interrompiam enquanto a gente estava fazendo o álbum. Então aproveitamos isso e usamos os latidos na música de uma forma bem-humorada.”

Preciso Falar
“Imaginei uma música sertaneja de amor. Apesar do surgimento do sertanejo feminino, o gênero é ainda um universo bastante machista, no qual um relacionamento homoafetivo é distante. Inicio no tema do amor tradicional mas, de repente, você percebe que estou falando de outro homem. Algumas pessoas disseram que eu tive um amor gay e nunca contei pra ninguém. Sou hétero, casado há 30 anos com a mesma mulher. Malu [Mader, esposa de Belotto] e eu temos reputação de casal bem-sucedido, então achei legal mexer com isso. A arte traz essa possibilidade.”

Miss Brasil 200 Anos
“Esta é do Mario Fabre, nosso baterista. A letra brinca com as cores da bandeira do Brasil, que foram usurpadas por esse governo [2019-2022]. Elas representam a nação brasileira maluca, caótica e apocalíptica. É engraçado porque uma miss normalmente está no auge da formosura física, mas a da música tem 200 anos, assim como a independência do Brasil.”

São Paulo 1
“Também foi composta a partir da poesia concreta de Haroldo de Campos. Olho Furta-Cor abre com o canto Xingu e fecha com os sons urbanos de São Paulo. Buzinas, carros passando, ambulância. A gente quis trazer essa profundidade do Brasil. No fim, tirando toda essa parte teórica, é um disco de rock e de boas músicas.”